A Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS) foi uma organização não governamental apartidária e sem fins lucrativos criada em 21 de maio de 2012. Entre seus fundadores, estão o empresário Guilherme Leal; o advogado Marcos Vinícius de Campos; o executivo do mercado financeiro e presidente do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) Álvaro de Souza; o consultor na área de sustentabilidade Pedro Wilson Leitão Filho; a socióloga Maria Alice Setúbal; o empresário, professor e ambientalista Ricardo Young Silva; e o cientista político Leandro Machado, entre outros. A entidade tinha como objetivo "contribuir para a melhoria da democracia e do processo político brasileiro e na disseminação da sustentabilidade", da igualdade racial e da equidade social na política institucional. Em 12 março de 2024, a RAPS oficialmente encerrou suas atividades.

Antecedentes

No Mundo O conceito de organizações voltadas para advocacy não é novo; a busca por impactar e mudar políticas públicas de dentro do sistema, porém, fez surgir entidades cujo formato se delineou e concretizou ao longo do século XX: uma das primeiras voltadas ao processo eleitoral foi a Campaign School at Yale University, criada em 1974 nos Estados Unidos para treinar candidatos (não somente mulheres, como também de outras minorias) para campanhas eleitorais e liderança política, e assim “aumentar o número e a influência de mulheres em cargos eletivos e nomeados não somente nos Estados Unidos, como em todo o mundo”. O treinamento de lideranças também é o foco da Common Purpose, fundada no Reino Unido em 1989, e da African Leadership Academy, instituição criada em 2008 na África do Sul e com atuação global. Outros exemplos são as think tanks Asuntos del Sur, fundada em 2007 na Argentina e que age não somente no combate a problemas endêmicos na América do Sul, particularmente a pobreza, como na implementação de soluções, como o desenvolvimento sustentável; e a alemã Das Progressive Zentrum, que desde 2007, entre outras ações, analisa como os eleitores percebem o governo sob o qual vivem. Outras organizações conhecidas são a Germanwatch, entidade alemã fundada em 1991 que busca influenciar as políticas públicas sobre comércio, meio ambiente e relações entre os países do norte industrializado e do sul subdesenvolvido; e a ONG Démocratie Ouverte, que desde 2012 trabalha para a transformação democrática das instituições públicas locais e nacionais e das organizações privadas. A renovação do cenário eleitoral é um dos objetivos da New Politics, organização que surgiu em 2014 nos Estados Unidos para apoiar candidatos a cargos eletivos com perfil para o serviço público (o que atraiu candidatos advindos das Forças Armadas), e na Run for Something, entidade voltada desde 2017 a “recrutar e apoiar jovens progressistas para concorrer em eleições locais, a fim de construir poder sustentável para os democratas em todos os 50 estados” norte-americanos.

No Brasil A maioria das entidades com foco na formação e aprimoramento de novas gerações de políticos surgiu sob a presidência da economista Dilma Roussef, eleita em 2010 e afastada por impeachment em 2016. O Partido dos Trabalhadores dominava a cena política: na Câmara dos Deputados, elegeu 88 deputados federais, tornando-se a maior bancada dessa Casa, e no Senado, 14 novos membros (perdendo apenas para o PMDB, que elegeu 21 senadores e passou a liderar a Casa). Em 2013, o país foi sacudido pelas Jornadas de Junho (que levaria a uma crise de representatividade no Brasil) e, no ano seguinte, a Operação Lava Jato atingia as fileiras de todos os partidos), com prisões e denúncias de corrupção ativa e passiva e de lavagem de dinheiro. A crise econômica gestada a partir de 2014 impactaria as eleições daquele ano e faria com que o país experimentasse uma guinada política à direita aliada à renovação política. Isso levou ao surgimento de movimentoscom ênfase na participação cívica, principalmente entre os jovens. Essas novas entidades rapidamente conseguiram espaço e angariaram a participação de lideranças e políticos de todas as ideologias (muitas vezes, contrariando as diretrizes dos partidos ao qual se filiaram). Essas entidades terminariam por influenciar fortemente o cenário eleitoral. A Rede de Ação Política pela Sustentabilidade – RAPS surgiu em 2012; seguiu-se a fundação do Movimento Brasil Livre/MBL em 2014 e a do Movimento Acredito, do Agora! e do RenovaBR em 2017, entre outros.

A RAPS Em 2010 e mesmo inexperiente na política, o empresário Guilherme Leal concorreu, pelo Partido Verde, à vice-presidência na chapa encabeçada por Marina Silva. Diversos pontos da pauta defendida no programa de governo da então senadora estavam inseridos na proposta do Instituto Arapyaú, uma organização sem fins lucrativos criada por Leal em 2008 e voltada para o desenvolvimento sustentável da economia, do ambiente, da política e da sociedade. O empresário se juntaria ao professor, advogado e ex-deputado pelo então Partido da Frente Liberal (hoje Democratas) Marcos Vinícius de Campos para, mesmo não crendo na vitória de Marina Silva à presidência, "mudar a agenda nacional". Os quase 20 milhões de votos que a chapa recebeu, tendo sustentabilidade como o carro-chefe do discurso, levou os dois a se juntarem a outros (como o vereador Ricardo Young e a socióloga Maria Alice Setubal) e usar a experiência adquirida (e o apoio às ideias da chapa) para promover mudanças na política institucional. A inspiração veio da entidade argentina Red de Acción Política (RAP), que tem forte atuação no cenário eleitoral argentino (como a campanha pela cédula única ). Em 2011, parte do grupo foi a Buenos Aires conhecê-la e, em maio de 2012, a versão brasileira foi fundada com o nome de Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS). Segundo Guilherme Leal, o objetivo da entidade seria “melhorar a qualidade de quem nos representa e governa. A entidade seleciona um grupo de políticos, com ou sem mandato, e dá a eles uma formação básica, uma espécie de ‘selo de qualidade’”. Em uma publicação institucional da RAPS, a última diretora executiva da entidade, Mônica Sodré, pregava “a sustentabilidade na política institucional por meio do preparo de candidatos a cargos eletivos e do apoio a pessoas já no exercício de mandatos”. A atuação da RAPS se deu por meio de quatro eixos estratégicos: “Advocacy em rede, baseado em ciência de dados”, "Desenvolvimento de lideranças políticas", "Produção e tradução de conhecimento e "Conexão e cooperação internacional”. Segundo ela, "a RAPS não foi um movimento de renovação na política. Somos, sim, uma organização que trabalha para incluir a sustentabilidade na política”. Os candidatos a integrar o RAPS precisavam passar por um processo de seleção; segundo o edital da entidade, para participar era necessário "ter ausência de impedimentos legais gerais, de condenações por crimes ambientais, de condenações por crimes contra a economia popular, por crimes contra a Administração Pública e outros; ter ausência de quaisquer condições indicativas de inelegibilidade previstas na Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar no 64/1990)".

Atuação Além da preparação de candidatos a cargos eletivos, a entidade e seus membros atuaram no debate sobre política, sustentabilidade, equidade, educação, saúde, meio ambiente e governança, entre outros temas ; organização de cursos de capacitação de lideranças e de políticas públicas e sustentabilidade; e na outorga do Prêmio RAPS de Inovação e Sustentabilidade para as melhores iniciativas de caráter social, além de servir de modelo para o surgimento de outras entidades.

Publicações A RAPS gerou publicações como: Mandatos coletivos e compartilhados: desafios e possibilidades para a representação legislativa no século 21, publicado em novembro de 2019, é um banco de dados históricos (1994 e 2017) sobre mandatos exercidos por mais de uma liderança. O relatório é resultado de pesquisas realizadas pelo grupo Callipolis, ligado ao Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas (Esag) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). A Agenda do Clima no Congresso Nacional: Uma pesquisa sobre a percepção dos parlamentares brasileiros é um estudo então inédito (em parceria com Fundação Getúlio Vargas e o Instituto Clima e Sociedade/iCS) lançado em setembro de 2021 que mapeou as percepções e o comportamento de parlamentares brasileiros sobre as agendas do Clima e Ambiental na legislatura de 2019 a 2023. Guia Prático para Mulheres na Política, publicado em julho de 2022, mapeia os tipos de agressões e possíveis caminhos para combater os abusos sofridos pelas mulheres dentro da política. O documento foi concebido a partir do relato das experiências de 16 lideranças (novatas e veteranas) de diversos partidos e regiões do Brasil, e das entrevistas com seis especialistas. O guia apresenta mapas de ação interativos com formas para combater a violência de gênero na política. Violência e Democracia: panorama brasileiro pré-eleições de 2022 – Percepções sobre medo de Violência, Autoritarismo e Democracia é um levantamento então inédito publicado logo após 7 de setembro de 2022 (bicentenário da Independência do Brasil), feito em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública/FBSP. O estudo traz a percepção da sociedade brasileira a respeito da violência política, do autoritarismo e do apoio ao regime democrático, fudamentada pelos dados coletados pelo instituto Datafolha, que entrevistou 2.100 pessoas entre os dias 3 e 13 de agosto de 2022

. A entidade produziu outras publicações (guias temáticos sobre primeira infância, educação básica, saúde, mobilidade, urbanismo e mudanças climáticas; notas técnicas; manuais; pesquisas; cursos) disponíveis online, e participou de manifestos em defesa da Floresta Amazônica e em apoio ao sistema eleitoral brasileiro..

Durante a pandemia de covid-19 Além manter um boletim semanal (de 24 de março de 2020 a 30 e março de 2021) com as medidas adotadas pelo poder público para o combate à covid-19 no Brasil, em março de 2020 e de 2021 a entidade coordenou a organização de manifestos em defesa de "união e respeito às orientações da OMS", cobrando do então presidente Jair Bolsonaro ações de enfrentamento à crise sanitrária no país e apoio à população.

Encerramento das atividades Em 2024, a RAPS encerrou permanentemente suas atividades. Segundo a então diretora-executiva Mônica Sodré, “A decisão foi tomada depois de muita reflexão e nós entendemos que o mundo mudou, as organizações também precisam mudar. Os ciclos têm começo, meio e fim”. Segundo a entidade, ao fim de sua atuação haviam passado pela organização 564 lideranças políticas de 26 partidos de todo o país (182 ainda estavam, em 2023, no exercício dos cargos eletivos, sendo 7 senadores, 15 deputados federais, 31 deputados estaduais, 84 vereadores, 5 governadores, 27 prefeitos e 10 vice-prefeitos) e membros da sociedade civil, além da efetivação de apoio e parcerias entre a entidade e outras organizações como Fundação Fernando Henrique Cardoso, Instituto Votorantim, Fundação Getulio Vargas, Insper, Todos pela Educação, FecomércioSP, Fundação Lemann e Universidade Federal de São Paulo ((Unifesp), entre outros.

Políticos participantes

Membros da sociedade civil participantes

Referências

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