A morada paulistana dos artistas, projetada pelo escritório Meireles + Pavan Arquitetura, pulsa criatividade e o ritmo sereno da rotina com a filha, Nara

Jullio, de Cohí, e Manu, de blusa garimpada e saia Leïna de La Valette, em seu apartamento paulistano, junto aos cães Magnólia e Aipim — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

É sempre noite de lua cheia na casa da artista Manu Gavassi e do ator Jullio Reis. Logo na entrada, um recorte circular em um painel de jacarandá evoca a satori no mado, janela típica dos templos zen-budistas no Japão que remete à fase completa do astro. Na versão original, ela costuma se abrir para a vegetação; aqui, emoldura cenas de um cotidiano criativo que gira em torno de Nara, filha do casal, batizada com o nome da cidade japonesa onde noivaram. Assinado pelo escritório Meireles + Pavan Arquitetura, o dúplex ocupa o topo de um edifício moderno paulistano.

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A espacialidade generosa das plantas baixas antigas orientou a busca pela morada, mas nada parecia suficientemente inspirador – até cruzarem a porta de madeira maciça deste apartamento. A atmosfera dos anos 1970, a marcenaria escura parcialmente preservada e o terraço no segundo pavimento os fascinaram. Nem mesmo o abandono de quatro décadas foi capaz de assustá-los. “Nos apaixonamos pelo que ele era”, conta Manu. “Quando dormimos aqui pela primeira vez, não teve estranhamento. Nós pensamos: ‘Há quanto tempo moramos aqui?’”, complementa Jullio.

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No living do primeiro pavimento, Jullio, de Cohí, e Manu, de blusa garimpada e saia Leïna de La Valette, posam com os cachorros Aipim e Magnólia no sofá Bardot, próximo à mesa de centro Blade II, ambos da Prototype, esta com pesos de papel Pedra II e bowl Núcleo III, todos de Jacqueline Terpins, na Dpot Objeto, e bowl atribuído à Reed & Barton, na Casa Operandi, tudo sobre tapete da Cartacho Tapetes – o painel da ID Móveis contém a porta do lavabo, que recebeu maçaneta da GPO, e sustenta prateleiras de quartzito Emerald Green, pedra curada por Gabriella Kato — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

No hall de entrada, escada de quartzito Emerald Green, painel e móvel da ID Móveis, escultura Vênus, de Áurea Sacilotto, na Dpot Objeto, cachepôs da Casa Operandi, bonsai da People in the Garden e revestimento de piso e teto da Monofloor, presente em todo o apartamento — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

Na sala de jantar, mesa Aga, de Brunno Meireles, com centro de mesa Seixos (à frente), de Ari Beraldin Jr., na Dpot Objeto, e cadeiras garimpadas, tudo sob luminárias Sol P, de Mel Kawahara – sobre o aparador, bandeja Acqua, da Riva, com copos O Equilibrista, de Suzanne Reboh, na Marché Art de Vie, objeto de cristal Imerso, de Jacqueline Terpins, na Dpot Objeto, e cortina da Uniflex — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

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A escolha pela arquitetura de André Pavan e Brunno Meireles foi um caminho natural para chegar a esse estado de pertencimento. “Buscamos criar uma única narrativa, com espaço, mobiliário, iluminação e arte na mesma linguagem, inspirada pela filosofia japonesa na qual a luz é matéria de projeto e o vazio é elemento compositivo”, explica André. “Essas referências dialogam com um minimalismo ‘quente’ e com o mid-century modern, reinterpretado sob uma ótica contemporânea e presente, por exemplo, no sofá de veludo amarelo que repousa sobre esferas pretas na sala de estar, tão escultórico quanto funcional.” Essa irreverência com os pés no chão é marcante em toda a composição. “Não queria a sensação de morar num hotel, mas na minha casa. Queria ousadias, como um vidro colorido na cozinha”, diz Manu. “Fizemos a mistura dessa ‘loucurinha’ que tínhamos na cabeça com a elegância e o acabamento impecável deles.”

A cozinha e a sala de jantar são meio que o coração da nossa casa. Existe um afeto nesses locais que, para nós, é muito importante

— Jullio Reis

Outro ângulo do living do primeiro pavimento concentra sofá revestido de tecido da Art Linho, cortina da GPO e banco Robust I, da Pair — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

A cozinha exibe marcenaria da ID Móveis, bancadas de aço inoxidável da Artsteel, com bandeja Espelho d’Água e vaso Respiro, do F. Studio, na Dpot Objeto (ao fundo, à dir.), ilha revestida de porcelanato da Portobello, com balde de gelo vintage, na Casa Operandi, e bandeja da coleção Stacks, design Brunno Jahara para a St. James, na Dpot Objeto (da esq. para a dir.), e eletrodomésticos da Brastemp — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

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Como o imóvel possuía uma compartimentação rígida, a reforma precisou ser radical. Grande parte da marcenaria original sucumbira aos cupins, mas o projeto preservou o que pôde: as portas de madeira da área íntima foram restauradas, assim como os lustres vintage encontrados no apartamento. A planta foi redesenhada para atender à dinâmica do casal e à chegada de Nara: os quartos viraram três suítes, a antiga sala de TV deu lugar ao quarto da bebê e um dos dormitórios foi transformado em closet.

Não ficamos fixos num lugar só, vamos no da Nara. A casa está contaminada com a nossa energia e mudamos junto dela

— Jullio Reis

Manu e Jullio vestem Dior e dançam na sala de TV, composta por caixa de som Prototype, design Felipe Protti, da Prototype, em parceria com Leonardo Belchior, da Quark Audio, e mesa lateral Manoela, de Itamar José, na Herança Cultural – sobre o rack, telas da série Silêncio, Por Favor I (2025), de Nazareno, e Impressão (1997), de Ana Vitória Mussi, ambas na Galeria Lume, vaso Cubo, do Studio Pedrazzi, e cumbuca alta, ambos na Dpot Objeto, e vaso Gil, de Kika Mattos, na Marché Art de Vie (da esq. para a dir.) — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

Na suíte do casal, cabeceira da ID Móveis, arandela Lua, do Estúdio Orth, tela de Samuel de Saboia e, sobre a cama, almofadas da Art Linho e manta Raiz, da Oiamo, na Casa Operandi — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

No closet, cadeira Hawaii, design Noemi Saga para a Pair, marcenaria da ID Móveis, garrafa de vidro de Elisa Stecca, na Dpot Objeto, e carpete da Naturali Tapetes — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

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Com a derrubada das antigas divisórias, a área social tornou-se um espaço contínuo no qual a cozinha assumiu papel central. O ambiente combina a estética retrofuturista do aço inoxidável com a calidez do porcelanato vermelho, tudo iluminado através do painel de vidros coloridos em tons de âmbar, verde e laranja. É onde o dia começa, sempre com panquecas de banana que Manu prepara para Nara. Da ilha, veem-se a mesa de jantar, desenhada por Brunno, e as cadeiras garimpadas pelo casal, que aguardavam o endereço certo para encontrar seu lugar definitivo, como boa parte do que há por ali.

Existe a intenção de trazer tanto a família da Manu quanto a minha para dentro. Não só em fotos, mas fisicamente, e também nós como casal, nossas viagens e nossos processos

— Jullio Reis

Canto da sala de TV com móveis garimpados e herdados, quadro de Fernanda Pompermayer (na parede) e instrumentos musicais da família — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

Na sala de TV, banco Kaji, da Pair, arandela Saboneteira, da LL+DM, e tela Orquídeas Noturnas (2026), de Marina Sader — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

Outro ângulo da sala de TV reúne marcenaria da ID Móveis (ao fundo), com banco revestido de tecido da Art Linho, duas almofadas retangulares Dunas, na Casa Operandi, arandelas Dominó, da LL+DM, livros na Sandro Livros e vasos da Pair – completam a cena o sofá Block, do Estudiobola, e o tapete da Botteh — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

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A escada de mármore e madeira conduz ao segundo pavimento, onde outro living guarda um piano, obras de arte de jovens autores, livros e discos. Do lado oposto está o terraço, revestido com blocos de quartzito de tom avermelhado, em alusão às alamedas do Instituto Inhotim, que guia ao refúgio mais pessoal do casal: o escritório. É nesse cenário suspenso sobre a metrópole que o trabalho artístico se desenrola.

Eu já tinha lido muito sobre criatividade e tenho colocado em prática este equilíbrio: ter picos de criação, parar e voltar com outra sensação

— Manu Gavassi

No escritório, a estante da ID Móveis apoia adorno Block Garden e licoreira âmbar, ambas na Casa Operandi, caixas Livro, de Guilherme Saas, na Dpot Objeto, e escultura Tendresse, do Coletivo Avuá, na Marché Art de Vie, tudo sob luminária da La Lampe — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

No terraço, Manu, de Pége, rega as plantas do paisagismo da People in the Garden com a jarra Loops Níquel, design Brunno Jahara para a St. James, na Dpot Objeto, na companhia das poltronas Seixos, da Casa Atica, e da mesa de centro do Assimply Studio, tudo sobre piso da RFP Piso e Revestimentos — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

Ainda na área externa, carrinho-bar Bacaro, de Giorgio Bonaguro, na Herança Cultural, com jarra e balde de gelo, na Casa Operandi, mesa do Assimply Studio e cadeiras Ryukyu, da Casa Atica — Foto: Fran Parente | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim

“Ter esse espaço isolado foi mágico. Dá a sensação de trabalhar fora de casa”, descreve Manu, que está adaptando duas obras literárias para o audiovisual: Ninguém Pode com Nara Leão: Uma Biografia (Planeta, 2021, 240 págs.), de Tom Cardoso, e Os Coadjuvantes (Companhia das Letras, 2022, 112 págs.), de Clara Drummond. “Consigo escrever por 40 minutos com foco total e depois descer para brincar com a Nara. Isso mudou minha relação com a criatividade”, ela conta. A outra metade concorda. “Para quem cria, ter essa fronteira clara entre o trabalho e a vida particular é um sonho. É a permissão para entrar no modo criação e, ao descer, estar inteiro para a família”, celebra Jullio. A lua cheia os espera.

Assistente de produção: Helena Aparecida Cardoso Carneiro. Assistente de fotografia: Arthur Duarte. Styling de moda: André Braune. Produtora de moda: Izabella Camara. Assistente de moda: Jonathan Silva. Beleza: Mario Marques/Capa MGT. Assistente de beleza: Júnior Éfima. Camareira: Eliana Amaral

*Matéria originalmente publicada na edição de outubro de 2026 da Casa Vogue (CV 488), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.

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