Política / Eleições 2026

Candidato do PL defendeu proposta para renegociar dívidas e justificou mudança de posição sobre escala 6x1; presidente busca avançar na pauta da segurança pública
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Lula e Flávio se enfrentam no debate da Band antes do segundo turno — Foto: Maria Isabel Oliveira/Agência O GLOBO
Os candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentaram ocupar terrenos tradicionalmente associados ao adversário durante o debate presidencial da Band neste domingo. Enquanto o senador buscou dialogar com trabalhadores ao justificar sua mudança de posição sobre o fim da escala 6x1 e apresentou propostas para enfrentar o endividamento das famílias, o atual presidente, que busca a reeleição, tentou se aproximar da pauta da segurança pública, uma das principais bandeiras da campanha do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A movimentação ocorreu em um debate marcado por acusações, ataques pessoais e discussões sobre temas como o Banco Master, o INSS e os benefícios sociais. Os dois candidatos procuraram explorar assuntos em que o adversário enfrenta maior desgaste ou que fazem parte da identidade política do outro, em uma tentativa de ampliar o próprio repertório na reta final da campanha.
Um dos exemplos foi a discussão sobre a escala 6x1. Flávio, que se posicionava contra a proposta de redução da jornada de trabalho, votou a favor da medida na semana passada e justificou a mudança durante o debate com o argumento de que ouviu trabalhadores em suas viagens pelo país.
— Rodei esse Brasil inteiro e ouvi de você, trabalhador, que queria ter esse direito a mais um dia de folga. Por isso, eu votei a favor. Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar, sou uma pessoa que, se for convencida, posso melhorar a minha opinião se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros — afirmou.
O senador tentou, porém, associar a ampliação do tempo livre à segurança pública, tema central de sua campanha. Ao defender a mudança, disse que o trabalhador que tem um dia de folga a mais precisa ter condições de aproveitar o descanso sem medo de ser vítima de um crime, citando o receio de ir à praia e de sofrer roubos no transporte público. Também mencionou o temor de mulheres de serem assaltadas ou violentadas em ônibus.
Outro tema em que Flávio procurou avançar sobre uma pauta associada ao governo foi o endividamento das famílias. Lula aposta no Desenrola 3.0, lançado em setembro para renegociar dívidas em atraso com descontos. A iniciativa prevê até R$ 15 bilhões para a compra de carteiras de crédito e pode alcançar 15 milhões de pessoas.
Flávio, por sua vez, apresentou o SOS Brasil, programa anunciado inicialmente em uma transmissão ao vivo e que prevê renegociação de débitos com descontos de até 90%. A proposta inclui a criação de um fundo abastecido por royalties do petróleo, imóveis da União e securitização de créditos. A equipe do senador estima que o programa possa movimentar R$ 3 trilhões, mas ainda faltam detalhes sobre como a iniciativa funcionaria na prática e como seriam viabilizados os descontos prometidos.
No debate, Flávio afirmou que pretende criar um Ministério da Prosperidade e comprar dívidas de pessoas físicas e empresas junto aos bancos por valores menores. Ele prometeu congelar os pagamentos por seis meses para pessoas físicas e por um ano para empresas, além de oferecer juros menores e financiamentos de longo prazo após o período de carência.
— No meu governo, a gente vai comprar a sua dívida dos bancos. E o que que vai acontecer com isso? Vai ser já por um valor muito menor. Quando eu começar a ser presidente da República, a taxa de juros já vai começar a cair de uma forma muito rápida — disse.
O senador também prometeu manter o reajuste do Bolsa Família e afirmou que a redução dos juros permitiria às famílias voltar a consumir e às empresas recompor seus estoques. No entanto, não detalhou durante o debate como o programa seria operacionalizado nem como o governo arcaria com a compra das dívidas nos moldes apresentados.
Segurança pública
Se Flávio tentou ocupar espaço em temas ligados à agenda econômica e social do governo, Lula foi confrontado com questões de segurança pública, área em que o senador concentra parte de suas críticas ao petista e um dos principais flancos da agenda do governo Lula. Um dos embates ocorreu em torno da saída temporária de presos, conhecida como ‘saidinha’.
Ao ser questionado sobre o tema, o presidente defendeu a possibilidade de presos com bom comportamento e que estejam avançando no processo de recuperação saírem temporariamente para visitar familiares. Lula argumentou que a medida não deve ser eliminada para todos os detentos por causa dos crimes cometidos por alguns beneficiários.
— Não é porque um cidadão saiu e cometeu um erro que você vai punir milhares de pessoas que conquistaram o direito de sair diante da Justiça brasileira. Se a pessoa tiver um comportamento decente, se a pessoa estiver se recuperando, é justo que a pessoa saia para ver a sua família — afirmou.
A segurança pública também apareceu no confronto sobre o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por uma bala perdida em fevereiro de 2021, em Niterói. Flávio atuou como advogado do policial militar suspeito de ter efetuado o disparo que atingiu a criança. Lula questionou a atuação do senador no caso, enquanto Flávio respondeu deslocando a discussão para o avanço da criminalidade durante os governos petistas.
O presidente também defendeu a ampliação da participação do governo federal na área. Lula afirmou que Flávio poderia ter apoiado a proposta de emenda à Constituição encaminhada por seu governo em março do ano passado para dar à União mais condições de atuar na segurança pública, atribuição que hoje cabe principalmente aos estados. A proposta, ainda em tramitação, é mais conhecida como PEC da Segurança.
— Os estados fracassaram. Nenhum estado resolveu o problema da segurança pública — declarou.
Lula citou ainda a aprovação da lei de combate ao crime organizado, que aumentou penas para integrantes e líderes de facções, e afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública caso a PEC sobre o tema seja aprovada pelo Senado. A proposta busca ampliar a coordenação entre União, estados e municípios no combate ao crime organizado e às milícias.
A PEC da Segurança Pública ainda aguarda votação no Senado. A análise, prevista para a semana passada, foi adiada pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). A discussão ocorre em meio à pressão da oposição por medidas mais duras na área, incluindo a redução da maioridade penal. Há propostas para diminuir a idade de responsabilização criminal de 18 para 16 anos e, em casos de crimes hediondos, para 14 anos.
Lula também passou a admitir recentemente a possibilidade de reduzir a maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, uma mudança em relação à posição tradicionalmente defendida pela esquerda. O presidente abordou o tema durante sabatina na TV Globo.
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